Artigo: Como transformar servidores públicos em cientistas de dados

Quando falamos a respeito da figura do servidor público, que tipo de pessoa vem à sua cabeça? Muitos ainda veem a imagem de uma pessoa conservadora e com aversão à tecnologia e aos números. Em um primeiro momento, pode até ser difícil imaginar como se dá um processo de capacitação e transformação de servidores públicos em um profissional que hoje domina as grandes corporações privadas, o cientista de dados.

Antes de explicar como transformar servidores em cientistas de dados, é importante entender o que é Ciência de Dados. “O que é Ciência de Dados? Why should I care?” do Professor Rommel Novaes Carvalho. Como resultado das transformações na ciência e no mundo dos negócios, e como retorno às demandas existentes nas organizações, observamos a expansão de uma área de estudo interdisciplinar e intensivamente computacional: a Ciência de Dados (Data Science) – que é baseada na extração de conhecimento para tomada de decisão corporativa através de uma grande quantidade de dados, seja em Big Data, seja em um banco de dados tradicional. Segundo a publicação “The Future of Jobs”, de 2017, do Fórum Econômico Mundial, a carreira do cientista de dados é considerada como a mais promissora até o ano de 2020.

Dentre as disciplinas comportamentais necessárias para a plicação da Ciência de Dados, pode-se incluir um conjunto de habilidades que caracterizam um “profissional unicórnio”. Isto é, um profissional multidisplicinar que deve englobar conhecimentos relacionados à inteligência de negócio, matemática e estatística e ciência da computação. O cientista de dados é o responsável por essa tarefa de montar algoritmos e modelos matemáticos que entendem informações incompletas e as transformam em conhecimento valioso.

As barreiras que ainda inibem a formação de cientistas de dados são devidas, possivelmente, à formalidade e ao conservadorismo como um todo do Poder Público que, em algumas ocasiões, mostra-se naturalmente mais resistente a mudanças que outros setores, o que acaba invariavelmente sendo refletido na imagem das pessoas que o compõe. Porém, isso está mudando. Não há mais como estar à frente do mercado de trabalho se o profissional não estiver atualizado tecnologicamente. Se essa é, hoje, a realidade de qualquer empresa, por que não também do setor público?

Segundo Wesley Waz Silva, Secretário de Gestão de Informações para o Controle Externo do TCU, é preciso reconhecer que soluções complexas, em especial as intensivas em tecnologia, estão naturalmente sujeitas às falhas e insucessos. Em determinados ambientes, em especial para as instituições públicas que atuam em ambiente altamente regulado, as falhas podem gerar desconforto e, em última instância, responsabilização. A reação a isso se impõe na forma de inibição ao surgimento de novas iniciativas por medo do fracaso. Nesse contexto, uma nova relação com os riscos deve ser estabelecida sem que se afronte, poróbvio, o princípio da legalidade ao qual todas as iniciativas públicas se vinculam. Todavia, a tendência de utilização maciça dos dados públicos está posta e é similar à realidade atual das organizações privadas.

Nesse mundo dos dados, como está o servidor público? Pois bem, para quem ainda não está convencido de que possa haver cientistas de dados no setor público, na chamada pública, para ainda não está convencido de que possa haver cientistas de dados no setor público, na chamada pública para a quarta edição do Seminário de Análise de Dados na Administração Pública, evento organizado conjuntamente pelo Tribunal de Contas da União (TCU), pelo Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União (GCU) e pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), foram inscritos mais de 60 projetos, utilizando técnicas de mineração de dados e textos, aprendizado de máquina, reconhecimento de imagens, georreferenciamento, dentre outras. O TCESP contribuiu com 3 projetos na chamada de trabalhos.

Considerando que a ciência de dados parece já ser uma realidade em vários órgãos públicos, teremos que capacitar todos os nossos servidores para montar projetos correlatos? A resposta é não! A atuação do servidor público no mundo da análise de dados envolve dois patamares bem definidos. O primeiro não requer qualquer conhecimento em estatística ou programação, nem mesmo em Excel: é o consumidor de informação. Esse é um perfil que vai consultar a informação nos painéis de análises. Essa pessoa precisa deter conhecimentos de negócio (fiscalização) suficientes para saber onde buscar a informação necessária, como aplicar filtros aos dados, como exportar essa informação para um relatório em produção. Enquanto não houver um “botão que traga tudo”, “um gerador de relatório com todos os indícios”, “um Google dos painéis”, navegar por eles será tarefa para profissionais com treinamento adequado e principalmente com interesse em aprofundar e melhorar os resultados de seus trabalhos.

Um meio termo entre o primeiro e o segundo patamar seria um perfil que não apenas seja capaz de navegar pelos painéis, mas também que tenha conhecimentos para manipular arquivos em diferentes formatos e construir suas próprias análises, em forma de tabelas ou de gráficos, basicamente utilizando as funções disponíveis no Excel.

O último patamar envolve a capacidade de extração de conhecimento para tomada de decisão corporativa através da manipulação de uma grande quantidade de dados, seja em Big Data, seja em um banco de dados tradicional. Pode-se usar desde o Excel passando por ferramentas de acesso e construção simplificada de consultas a sistemas de gestão de bancos de dados, as denominadas plataformas de visualização, como Tableau, Qlik Sense e PowerBi; até chegar a linguagens de programação como SQL, Hadoop, R e Python.

Na atuação plena do plena do cientista de dados, é fundamental a atuação da própria fiscalização, principalmente para que informações subtraídas em dados não confiáveis sejam tratadas segundo regras e entendimentos da fiscalização, evitando-se que cheguem ao tomador de decisões as informações de baixa qualidade, que possa gerar aumento de custos operacionais, perda de tempo e desconfiança em quem disponibiliza os dados.

Por outro lado, aprender a programar – seja em SQL, Python, R ou mesmo em fórmulas de Excel – ainda é visto como um desafio intransponível pela maioria das pessoas e até por conta disso, é necessário, em paralelo, o uso de ferramentas mais amigáveis e simples, do tipo point-and-click (aponte e clique), drag-and-drop (arraste e solte), como Tableau, Qlik ou Power BI.

O profissional do futuro será aquele que saberá lidar com naturalidade com as novas tecnologias que surgirem. Quando ele entende como são geradas, pode extrair o potencial máximo que puderem oferecer e até mesmo influenciar no projeto de novas ferramentas. Assim, irá se destacar em sua área de atuação, podendo ocupar posições com maior poder de decisão. E o mais importante, trará o reconhecimento de que seu trabalho contribuiu para a entrega de melhores resultados e de maior produtividade, fatores determinantes para cumprir o que a sociedade esperar de nós, servidores públicos.

 

Fonte: Artigo publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, número 168, no dia 14 de setembro de 2018, por Ricardo Kengi Uchima, Chefe Técnico da Fiscalização da Divisão AUDESP do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP).

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